R Holanda
19 May
19May

Para compreender o que significa, na prática, transformar um sistema fluvial em infraestrutura logística, há um exemplo que se impõe: a França. Com cerca de 8.500 quilômetros de vias navegáveis estruturadas, a República francesa detém a maior rede fluvial da Europa e oferece o caso paradigmático do que distingue, com clareza técnica e institucional, uma hidrovia de um rio simplesmente navegável. Os rios franceses, em sua quase totalidade, foram canalizados, equipados e integrados a um sistema que combina canais artificiais, eclusas, barragens de navegação, pontes-canal, reservatórios e túneis. Não há, no território francês, rio importante entregue à própria sorte hidrológica. Há infraestrutura sustentando cada metro de via navegável.

A densidade desse sistema reflete séculos de construção institucional. A Voies Navigables de France, autarquia pública responsável por cerca de 80% da rede, administra aproximadamente 6.700 quilômetros de vias, divididos entre 3.800 quilômetros de canais artificiais e 2.900 quilômetros de rios canalizados. Sob sua gestão estão cerca de 2 mil eclusas, 400 barragens de navegação, dezenas de pontes-canal, reservatórios estratégicos e um conjunto de túneis navegáveis que atravessam divisores de águas inteiros. O sistema organiza-se em dois subsistemas complementares: um voltado ao transporte de carga em grande gabarito e outro dedicado ao turismo fluvial. A coexistência desses dois usos sob gestão única é, por si só, uma lição de governança. A hidrovia francesa não responde apenas ao mercado de cargas. Integra uma política mais ampla de gestão da água, ordenamento territorial e valorização patrimonial.

Essa construção não se fez em uma geração. A trajetória francesa começa no século XVII, ganha impulso decisivo no século XIX com a normatização do chamado gabarito Freycinet, e prossegue até hoje com obras que projetam o sistema para as próximas décadas. O atual projeto Seine-Nord Europe é a expressão mais visível dessa continuidade. Trata-se da construção de um canal de 107 quilômetros entre o rio Oise e a rede fluvial do Norte da França, com 54 metros de largura, capaz de receber comboios de até 185 metros de comprimento e 4.400 toneladas de carga. A obra integra o eixo Seine-Escaut, que conectará o Sena aos grandes portos do mar do Norte, e contará com 6 eclusas e 3 pontes-canal de grandes dimensões. O custo previsto foi recentemente revisado pela Cour des Comptes para 7,3 bilhões de euros, com conclusão estimada para o início da próxima década. Projetos dessa magnitude não se constroem em mandato presidencial. Atravessam governos, partidos e gerações.

A leitura técnica do caso francês traz uma constatação que merece atenção. Hidrovia pressupõe um conjunto articulado de obras civis, sistemas hidráulicos, gestão hidrológica e operação especializada que não se improvisa. A leitura política revela algo igualmente decisivo. Sem um modelo de governança que combine autoridade pública unificada, contrato de objetivos firmado com o Estado, planejamento decenal e capacidade institucional de fiscalizar a própria execução, nenhuma infraestrutura dessa natureza se sustenta no tempo. A França levou 200 anos construindo esse modelo. Ainda assim, convive com desafios consideráveis de manutenção. A Cour des Comptes francesa registrou recentemente o estado preocupante de parcela importante do patrimônio fluvial do país, alertando para o subinvestimento estrutural que ameaça obras seculares. Mesmo na nação que melhor consolidou a engenharia hidroviária do mundo, manutenção continuada é tema permanente, e não problema resolvido.

A Fenavega entende que a referência francesa não deve ser tomada como modelo a importar, mas como evidência do que está realmente em jogo no Brasil. A França não construiu sua rede por inspiração. Construiu-a por decisão de Estado, sustentada por instituições que sobreviveram a regimes, crises e mudanças de orientação política. O Brasil dispõe de uma das maiores redes potenciais de rios navegáveis do planeta. Transformar essa potência em infraestrutura efetiva exigirá, antes de qualquer obra, a construção da arquitetura institucional capaz de planejar, executar, fiscalizar e manter o sistema por décadas. É essa a verdadeira fronteira do debate. A engenharia, ainda que complexa, está dominada. O desafio brasileiro é institucional, é orçamentário, é, sobretudo, de continuidade. O exemplo francês mostra que o caminho existe. Cabe ao Brasil decidir se está disposto a percorrê-lo com a seriedade que ele exige.

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