R Holanda
21 May
21May

Em uma noite tempestuosa do ano 67 antes de Cristo, no porto de Bríndisi, no sul da Itália, o general romano Gneu Pompeu Magno tomou uma decisão que atravessaria séculos e atravessaria línguas. Diante de capitães hesitantes, atemorizados pela tempestade que se abatia sobre o Mediterrâneo, e encarregados de transportar urgentemente grãos para alimentar uma Roma faminta, Pompeu subiu a bordo, ordenou que se levantassem as âncoras e proferiu uma sentença que o historiador grego Plutarco registraria séculos depois em sua Vida de Pompeu: navigare necesse est, vivere non est necesse. Navegar é preciso, viver não é preciso. A frase, recuperada da tradição clássica por Fernando Pessoa no início do século XX, sintetiza em sete palavras aquilo que a história humana confirma a cada milênio: a navegação não é uma técnica entre outras disponíveis. É a condição material que sustenta a existência das civilizações, o comércio entre os povos, o abastecimento das cidades e a própria possibilidade de uma economia integrada. Sem ela, o mundo que hoje conhecemos simplesmente não existiria.

A ousadia de Pompeu, contudo, não foi o início desta história. Foi apenas um de seus capítulos. A história verdadeira começa muito antes, em algum momento entre 60 e 50 mil anos atrás, quando um grupo de homens e mulheres da espécie Homo sapiens fez aquilo que nenhum outro animal havia feito até então. Em algum trecho do que hoje conhecemos como Sudeste Asiático, essas pessoas embarcaram em jangadas precárias, provavelmente feitas de bambu, troncos amarrados ou peles infladas, e atravessaram uma extensão de mar aberto até alcançar uma massa continental que reunia, sob o nível mais baixo dos oceanos da última Era do Gelo, o que hoje chamamos de Austrália, Nova Guiné e Tasmânia. Os arqueólogos batizaram esse antigo continente de Sahul. Os ocupantes daquela travessia não tinham mapas, não tinham bússolas, não sabiam o que encontrariam do outro lado. Sabiam apenas que havia algo além do horizonte, e que ali se podia chegar. Foi a primeira grande proeza náutica documentada da humanidade. E, segundo Yuval Noah Harari em Sapiens, foi também o momento em que a espécie humana se estabeleceu, pela primeira vez, como senhora dos mares.

A intuição do historiador israelense é confirmada hoje pela arqueologia, pela genética e pela paleoclimatologia. Análises de DNA mitocondrial em populações aborígenes da Austrália e da Nova Guiné apontam linhagens com cerca de 60 mil anos, descendentes de uma população que partiu da África há aproximadamente 70 a 80 mil anos. Sítios como Madjedbebe, no norte da Austrália, atestam ocupação humana contínua nesse período. E a geografia da última Era do Gelo, com o nível do mar dezenas de metros abaixo do atual, ainda exigia travessias marítimas significativas entre as ilhas do Sudeste Asiático e Sahul. Não havia ponte natural. Não havia caminho terrestre. Havia mar aberto. E a única forma de chegar do outro lado era navegar.

Os milênios que seguem aquela travessia inaugural são, em larga medida, a história de como a humanidade aperfeiçoou sua relação com a água. Os egípcios construíram embarcações de papiro e madeira para navegar o Nilo, transformando o rio em eixo de uma das mais duradouras civilizações da história. Fenícios cruzaram o Mediterrâneo e, segundo relatos gregos, podem ter circum-navegado a África ainda no século VII antes de Cristo. Os polinésios, em uma das proezas mais subestimadas da navegação humana, colonizaram um triângulo oceânico de 25 milhões de quilômetros quadrados no Pacífico, do Havaí à Nova Zelândia, em canoas duplas guiadas apenas por estrelas, ondas e migrações de aves. E os romanos, depois do gesto inaugural de Pompeu, transformariam o Mediterrâneo em via interior de seu império, garantindo a chegada do trigo egípcio, do azeite ibérico e do vinho grego às mesas da capital. Cada civilização que se destacou na história deixou também a sua assinatura na água.

Entre todos esses navegadores, há um povo que merece atenção especial nesta narrativa: os Vikings. Durante a chamada Era Viking, entre os séculos VIII e XI, os escandinavos transformaram o conhecimento náutico em projeto civilizatório de alcance continental. Seus longships, embarcações de casco baixo construídas com a técnica de tábuas sobrepostas chamada clinker, combinavam velocidade, flexibilidade e calado raso, o que lhes permitia navegar tanto em mar aberto quanto em rios rasos do interior da Europa. Sem bússola, sem astrolábio e sem cartas náuticas, os Vikings dominaram o Atlântico Norte. Chegaram à Islândia, à Groenlândia e à América do Norte, que chamaram de Vinland, 500 anos antes de Cristóvão Colombo. Para se orientar em mar aberto, observavam o sol, as estrelas, as cores da água, o voo dos pássaros, o canto das baleias e o som das ondas. Usavam ainda um instrumento extraordinário, a pedra do sol, um cristal de calcita capaz de identificar a direção do sol mesmo em dias nublados, mediante o efeito da polarização da luz. Pode soar como lenda nórdica, mas a arqueologia moderna confirmou: cristais com essa função foram encontrados em embarcações naufragadas. A engenhosidade viking transformava, por séculos a fio, o conhecimento empírico em ciência aplicada do mar.

A Idade Média deu lugar ao período das grandes navegações, e o salto técnico foi extraordinário. Portugueses e espanhóis combinaram a herança árabe da navegação astronômica com a engenharia naval ibérica, e produziram as caravelas e naus que cruzaram, pela primeira vez na história, os grandes oceanos do planeta. Da viagem inaugural de Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança, em 1488, à chegada de Vasco da Gama à Índia, 10 anos depois, à descoberta do Brasil em 1500 e à circum-navegação concluída por Sebastián Elcano após a morte de Fernão de Magalhães em 1522, a humanidade reorganizou completamente sua geografia mental. O mundo, que até então fora um conjunto de regiões isoladas, passou a ser uma rede única conectada pelos mares. A globalização, palavra do nosso tempo, nasceu naquele momento, e nasceu navegando.

A modernidade só fez intensificar esse movimento. A máquina a vapor libertou os navios da tirania dos ventos no século XIX. A hélice substituiu a roda d'água. O aço substituiu a madeira. O motor a diesel substituiu o vapor no início do século XX. Os contêineres, padronizados a partir da década de 1950, transformaram a logística mundial: hoje, mais de 80% de tudo o que se comercializa entre países viaja por navio, em caixas metálicas idênticas que se empilham em portos do mundo inteiro. A navegação contemporânea opera com GPS, radar, comunicação por satélite, sistemas de identificação automática, propulsão inteligente e monitoramento remoto contínuo. Navios autônomos, capazes de cruzar oceanos com tripulação mínima ou sem tripulação alguma, deixaram o terreno da ficção científica e já realizam viagens experimentais entre portos europeus e asiáticos. A inteligência artificial passa a otimizar rotas em tempo real, considerando clima, correntes, consumo de combustível e congestionamentos portuários. O navio do século XXI é, em essência, um centro de dados flutuante.

Olhar para essa trajetória de 60 mil anos é uma forma de devolver à navegação a centralidade que ela sempre teve na construção da espécie humana, e que o cotidiano contemporâneo nos faz, com frequência, esquecer. Navegar foi a primeira ousadia tecnológica do Homo sapiens. Foi o instrumento da expansão das civilizações antigas, da expansão viking, das grandes navegações ibéricas, da revolução industrial e da globalização que hoje define o mundo. É a infraestrutura silenciosa sobre a qual repousa a economia global, e é o vetor que continuará a definir o futuro do comércio, da energia e da integração entre os povos. A Fenavega entende que o Brasil precisa olhar para essa história longa com a humildade de quem reconhece a estatura do tema e com a ambição de quem sabe que tem, em suas águas, condições naturais comparáveis às de qualquer grande potência marítima do planeta. Dos troncos da pré-história aos algoritmos do presente, navigare necesse est. Cabe ao Brasil decidir se quer ser protagonista ou espectador do próximo capítulo dessa história. E esse capítulo, como sempre, será escrito sobre as águas.

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